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O raio do ADN

por Henrique Antunes Ferreira, em 12.12.15

florinda.jpg

 

Quando Dona Florinda faleceu, aliás confortada com todos os sacramentos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica e Romana, a aldeia abanou, entrou em transe e quase em pânico, sobretudo quando o sino da igreja românica dobrou a finados.  Na tasca do Zé Pimpão pararam as cartas da sueca, as pedras do dominó e os copos de três da pipa ficaram esquecidos no balcão entre o barril e as gorjas dos que se preparavam para escorropichar o tinto até à última gota. Eu estava ali de férias e posso assegurar que – embora não tenha assistido ao evento à hora da morte – o que me chegou às mãos é mais ou menos a verdade.

 

Não quero ultrapassar o que me contaram pois se o fizera teria de escrever que os zagalos mandaram calar as ovelhas que soltavam os seus béeees  e até os cães interromperam suas corridas em torno do rebanho. Parece-me excessivo; outros segredaram-me, ainda que sem confirmação nem fontes seguras e fiáveis, o Manel dos recados, atrasado de nascimento, começara a ler o breviário do padre Santana, o pároco da freguesia. E a fonte da Fernandinha, - excelsa mulher a caminho da santidade no Vaticano na primeira classe do TGV - suspendera as suas três bicas (creio que provisoriamente). Podia lá ser, tanto milagre junto por certo que anunciava o fim do Mundo.

 

Porém, deitem-se para trás essas minudências e entre-se no cerne da questão, aliás simples mas simultaneamente difícil. Dona Florinda dos Santos Mateus era viúva do boticário José Francisco Silva Mateus (que Deus o guardasse à sua mão direita) e a pessoa mais rica da aldeia. Além de ser católica praticante com missa todos os dias e comunhão, virtudes não lhe faltavam. Do casamento não houvera descendentes. Ambos eram filhos únicos, não tinham irmãos, donde também não existiam quaisquer sobrinhos. Pais e padrinhos já tinham partido (para onde não sei); enfim não havia quaisquer herdeiros, pois a Senhora não fizera testamento.

 

cofre bancário.jpg

 

Eles eram courelas, eles eram tapadas, eles eram olivais, lagares, rebanhos, suínos e manadas de gado bovino – que se visse e se soubesse. As contas bancárias em duas agências na vila que ficava a uns dez, onze quilómetros deviam ser de boa monta, mas o dinheiro não tem cheiro e por mais que se apurassem as pituitárias, era realmente um mistério do danado do cofre. O gerente local correra o fecho éclair  da boca e mudo que nem gato morto recusava quaisquer pedidos. O Pimpão, muito chateado comentara que nem o gerente morre, nem a gente almoça, o que originara uns schius mas poucos

 

ADN 2.jpg

 

Então o que aconteceria às massas florindásticas? O padre Santana, que a ouvira de confissão e lhe dera a extrema-unção, aventou que talvez as melhores destinatárias eram as obras episcopais para a construção de um seminário nas plagas africanas. O diabo era levantar os euros e dispor das terras e outros benefícios. Mas quando se veio a saber que o pároco, ultrapassadas todas as dificuldades, seria o testamentário, ou seja iria gerir o pilim, o povo levantou-se, fez uma manif, muniu-se de cartazes e quase enforcou o digno sacerdote na torre da igreja – românica. Contaram-me depois que a enorme riqueza da Dona Florinda fora parar às mãos de um filho ilegítimo da Senhora – naturalmente às escondidas do Mateus, a comprovar que um marido, mesmo no além, é sempre o último a saber. O raio do ADN dá cabo de toda a virtude…

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18 comentários

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De Manuel Penteado a 12.12.2015 às 15:22

Belíssima.
Gostei das voltas, das virtudes e desse deambular pelos mistérios duma família impoluta, temente a Deus. Um padre, pobre homem, é sempre o presumível beneficiado com a fortuna das beatas e, por fim, a virtuosa tinha ensarilhado o homem com um valente par de cornos.
Esta é, de verdade, uma crônica do Henrique.
Um abraço
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De Henrique Antunes Ferreira a 12.12.2015 às 23:13

Manelamigo

Palavra de honra que me estragas com mimos. Mais destas tenho-as na gaveta esquerda juntamente com um tubo de cola, um desentubidor para o nariz e uma lanterna q.b.

Esta é a verdade... :-)))))

Abç do Leãozão
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De Manuel Penteado a 12.12.2015 às 23:18

O que é que falta aí?
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De Henrique Antunes Ferreira a 12.12.2015 às 23:25

Manelamigo

Uma embalagem de preser...identes menos o Cavaco

+ abç do Leãozão na sua glória
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De Graça Sampaio a 12.12.2015 às 22:13

Oh meu deus, Henriquamigo! Só mesmo o Henriquamigo para inventar uma saída destas para a senhora dona Florinda )que deus a tenha em santo descanso muitos anos sem nós...) tão católica, com missa diária e respetiva comunhão... eh eh eh...

Beijinhos e abraços
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De Henrique Antunes Ferreira a 12.12.2015 às 23:22

Gracinhamiga

Não conheci a Senhora Dona Florinda pois estava há poucos dias de férias e não tive essa honra e esse prazer. É certo que não estava no seu palácio nesse momento em que entregou a alma imaculada ao ente que estava(???) no céu. Quiçá ao porteiro Pedro do Vaticano. Assim fosse, glória nas alturas e baixuras, ite missa est.

A Raquel envia-te bjs e o tal Leãozão (ninguém nos para) muitos qjs
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De Fê blue bird a 13.12.2015 às 15:19

Henriquamigo finalmente apareci :)

E fui logo "apanhada" com uma história de bradar aos céus!
Então uma senhora tão católica, faz uma desfeita destas ao finado marido, ao sr. prior e principalmente ao seu amado povo ?

Como sempre envolveu-me e deliciou-me com as suas palavras.
Aproveito para vos desejar, um Feliz Natal, só com coisas boas.

Beijos para si e para a amiga Raquel.

Fê blue bird
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De Henrique Antunes Ferreira a 13.12.2015 às 18:11

Fernandinhamiga

De onde menos se espera sai uma estória para a mesa do canto! E a malta diz que dos enganos vivem os escrivães...

Ora muito bem, o que interessa é que já cá estás - e a Dona Florinda que vá pastar caracóis na Patagónia...

Bjs da Raquel e qjs do Leãozão


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De Luisa a 13.12.2015 às 16:45

Quem diria? Uma santa senhora, afinal pecadora. :)
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De Henrique Antunes Ferreira a 13.12.2015 às 18:13

Luizinhamiga

Virtuosa, virtuosa...

Qjs do Leãozão
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De Janita a 14.12.2015 às 00:26

Parabéns, HenriqueAmigo!

Esta história está de ler e chorar por mais! O que eu gostei de saber que a fonte da Fernandinha era tão fidedigna, que já ia a caminho do Vaticano no TGV, para chegar a tempo da beatificação!
Uma coisa de bradar aos céus.
às tantas houve trafulhice no resultado de ADN ou seria DNA?

Ainda tu dizes que o dinheiro não tem cheiro! Ai não que não tem!

esse tal filho cheirou-o ao longe!

beijos e abraços para ambos! Raquel e esposo...

Janita
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De Henrique Antunes Ferreira a 14.12.2015 às 01:16

Janitamiga

Há a segunda parte da estória que não foi contada; mas eu preencho esse hiato ou mesmo essa solução de continuidade.

Passa-se às gandas portas do céu (dos pardais que é a barriga dos gatos?). O Pedrocas abre o portão e depara-se-lhe a Dona Florinda.

Esta porém não vai entrar, vai sim a passar com tamanha velocidade que parece o novo Aerobus. Isto porque os seus predicados, virtudes incontornáveis & esperança no porvir são muitíssimos! O velhote saca do megafone e grita: Florinda diz merda senão entras em órbita!!!

Bjs da Raquel e qjs do Leãozão
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De Pedro Coimbra a 14.12.2015 às 02:27

Já depois da morte passou de púdica a pu.....mulher infiel, FerreirAmigo.
Ele é com cada surpresa!! :))
Aquele abraço, boa semana
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De Henrique Antunes Ferreira a 14.12.2015 às 20:46

Coimbramigo

"O amor tem destas coisas
inauditas, tão esquisitas
que nem têm explicação
Hoje agrada, logo enfada
e ninguém percebe nada
das coisas do coração"

(Maria de Lurdes Resende, anos cinquenta)

一個大大的擁抱 do Leãozão
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De agostinho a 14.12.2015 às 09:20

Pelos vistos o senhor seu esposo, da d. Florinda claro esta, nao atinou com a especialidade farmaceutica. Mas essa fatalidade so o seria se nao houvesse caridade neste mundo. Por entre consolos terrenos e confortos divinos tera a d. Florinda direito a uma suite com todos os predicados no ceu incluindo seguranca a porta. Quanto ao sr padre que a confessou muitissimas vezes (pormenor que o Henrique se esqueceu de referir) que sabera dos gostos da defunta como ninguem. A massa sera bem administrada. Abraco para toda a familia leonina incluindo o sr da juba.
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De Henrique Antunes Ferreira a 14.12.2015 às 21:05

Agostinhamigo

O Sr. da juba (branca) porque a preta, o que lá vai, lá vai - já foste, tem a honra de responder a Vossa Insolência

O arrazoado com que me prendas (sem algemas que isso são outros quinhentos mal réis) deixa-me inebriado (inebriado é a palavra certa) e deslumbrado, perante o teu sagaz comentário.

Misturas com mestria virtude, cornos e digníssimo sacerdote. Só tu o poderias fazer, imbricando saberes, inteligência, verve e significado que me deixa como boi (porra! Boi uma merda!) a olhar para um palácio.

"Ficarei-te" internamente grato pela lição magistral que do alto da tua insigne cátedra entendeste regalar-me. Togo-te o subido obséquio de me responder a esta mísera e mesquinha resposta mal alinhavada.

Qjs & abçs da alcateia leonina e em especial do Leãozão
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De A.Gomes a 14.12.2015 às 18:21

Votos de Feliz Natal
AG
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De Henrique Antunes Ferreira a 14.12.2015 às 21:07

Gomesamigo

Finalmente (e mesmo sem GPS) chegaste cá. Rejubilo.

Natal tão bom como for pssível

Leãozão

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